Tiago Mestre

Tiago Mestre (Beja, Portugal, 1978) tem, como um dos centros de gravidade de sua prática artística, a relação com a cerâmica a partir das olarias do Baixo Alentejo, região onde nasceu e foi criado. Seus trabalhos transitam entre a escultura, a instalação e a pintura, por vezes combinando-as e dissolvendo as classificações rígidas que separam as expressões artísticas: do mesmo modo, enxerga suas criações para a ATORIĒ. Mestre, que se formou e trabalhou por anos como arquiteto antes de se dedicar inteiramente às artes visuais, enfatiza que não há diferenças substanciais entre pensar suas peças como integrantes do campo da arte ou da arquitetura, já que suas reflexões tensionam os limites entre as disciplinas até um ponto de indistinção.

Na primeira colaboração de Mestre com a ATORIĒ, o artista criou um conjunto de luminárias únicas, todas moldadas à mão, além de uma mesa de centro e uma mesa lateral com edições limitadas.

Os principais materiais dessas peças, a argila e o bronze, são submetidos a altas temperaturas, compreendendo o desenvolvimento técnico como expressão da própria história da humanidade e entrelaçando-o com a história da estética. Mestre explora como a arte e a arquitetura utilizam ferramentas tecnológicas para tratar seus materiais e espaços vinculados aos desenvolvimentos técnicos fundamentais — como o fogo, o molde, a armação, a protensão —, assim como de que maneiras essas tecnologias se alinham a discursos artísticos e estéticos. Em diferentes contextos, tais narrativas aproximam-se ou distanciam-se da incorporação clara dessas operações: seja na produção fabril que distancia o artista da matéria, como na lógica do minimalismo estadunidense, seja em uma proximidade com a matéria em que as separações com o próprio corpo se confundem, como em Celeida Tostes e Anna Maria Maiolino. Dentro de relações produtivas da arte contemporânea, ou suas operações formais atravessam a modelagem de matérias brutas, o endurecimento ou amolecimento desses corpos pelo fogo, a valorização do vernacular e do artesanal, assim como especulações simbólicas que confrontam natureza e cultura e acentuam distinções tradicionais entre arte e funcionalidade, arquitetura e ambiente.

De modo provocativo, Mestre propõe que essas obras sejam esculturas que performam funcionalidades associadas ao mobiliário — como luminárias ou mesas, nesse caso específico. Podem, também, aludir figurativamente a esses objetos cotidianos e domésticos, compartilhando com eles a função, mas reafirmando sua essência escultórica por não se comprometerem com a eficácia funcional própria do design: por vezes, desequilibram-se ligeiramente, apresentam irregularidades, ocultam quando deveriam mostrar ou escurecem quando deveriam iluminar. Através dessa performatividade — na qual esculturas fingem ser móveis até de fato o serem —, Mestre propõe desvios propositais que instauram narrativas capazes de fragilizar o caráter estritamente funcional do mobiliário e abrir margem a ambiguidades melhor acolhidas no campo da arte.

Nos diálogos que antecederam a produção das obras com a ATORIĒ, um dos temas recorrentes levantados pelo artista foi a criação de relações entre claro e escuro. Ao longo das trocas na casa de fundição, nas reuniões em torno de croquis e nas oficinas cerâmicas, delinearam-se ideias que envolveram desde o uso pictórico da pátina colorida até o desenvolvimento meticuloso de protótipos — ajustes finos como a inclinação precisa dos pés das mesas e o modo mais elegante de ocultar o engaste que fixa o tampo à estrutura.

No trabalho colaborativo com os artistas, a ATORIĒ valoriza a confluência entre sua ampla experiência em design e a rede de fornecedores especializados, conciliando tecnologia de ponta e processos artesanais. Nas luminárias concebidas por Mestre, recusaram-se soluções industriais padronizadas para bocais e bulbos, optando-se por desenvolver componentes exclusivos. Após sucessivos protótipos, criou-se um bocal em alumínio anodizado na cor latão, projetado especialmente para o conjunto. Da mesma forma, foi concebido um bulbo próprio: a lente, moldada em acrílico austríaco de alta pureza ótica, foi usinada internamente para alcançar uma difusão de luz homogênea e precisa, resultado de cálculos minuciosos. A temperatura da luz foi calibrada para o máximo conforto visual, assim como o botão de acionamento recebeu atenção singular: desenhado conjuntamente pelo artista e pelo fornecedor, assume a forma de uma pequena esfera, completando o conjunto com rigor formal e discrição funcional.